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Português3 de junho de 2026Por Paulo Smolarek

Sobrenome no casamento: quando Brasil e Polônia perguntam quem você vira depois do sim

No Brasil, qualquer cônjuge pode acrescentar o sobrenome do outro. Na Polônia, a escolha aparece junto com uma decisão bem prática sobre filhos, hífens e identidade familiar.

A pergunta pequena que vira assunto de família

Antes de morar na Polônia, eu achava que sobrenome de casamento era uma daquelas burocracias meio automáticas: alguém casa, alguém adiciona um nome, o cartório imprime um papel novo e a vida segue. Depois que você entra numa família polonesa, percebe que essa pergunta aparentemente pequena carrega história, pronúncia, documentos, orgulho, assinatura no banco e até a futura chamada da escola de uma criança.

No Brasil, o costume social ainda faz muita gente olhar primeiro para a mulher, como se a mudança de sobrenome fosse quase parte da decoração da festa. Só que a regra jurídica é mais simétrica do que a tradição sugere. O Código Civil brasileiro, no artigo 1.565, parágrafo 1º, diz que qualquer dos nubentes, se quiser, pode acrescentar ao seu o sobrenome do outro. Ou seja: não é obrigação, não é só para a noiva, e não precisa transformar o amor em reforma completa da identidade.

Na Polônia, a sensação é diferente porque a pergunta aparece de forma muito explícita no processo do casamento civil. O serviço oficial do governo polonês explica que a pessoa pode manter o sobrenome atual, usar o sobrenome do cônjuge ou acrescentar o sobrenome do cônjuge ao seu. E há um detalhe que eu acho muito polonês no melhor sentido: se cada um fica com um sobrenome diferente, o casal também precisa declarar qual será o sobrenome dos futuros filhos, podendo escolher o de um dos pais ou uma combinação dos dois.

O hífen como pequena negociação cultural

Aqui entra uma parte curiosa para um brasileiro. No Brasil, nomes longos não assustam tanto. A gente cresce com certidão que parece árvore genealógica, sobrenome da mãe, do pai, às vezes dois de cada lado, e na prática todo mundo escolhe qual pedaço usar na vida cotidiana. Eu conheço brasileiros que têm quatro sobrenomes e ainda assim assinam só dois porque ninguém tem tempo de preencher cadastro até amanhã.

Na Polônia, o sobrenome composto existe, mas a lógica tende a ser mais enxuta. A legislação polonesa limita o sobrenome formado por combinação a no máximo dois elementos. Isso muda o clima da decisão. Não é simplesmente empilhar famílias como quem monta um prato no buffet por quilo. É escolher o que cabe oficialmente, o que soa natural em polonês, o que a criança talvez consiga soletrar sem transformar cada atendimento telefônico em uma aula particular.

Para casais Brasil-Polônia, esse detalhe vira uma conversa muito concreta. Um sobrenome brasileiro pode ser lindo, mas longo. Um sobrenome polonês pode ter consoantes que fazem um atendente brasileiro respirar fundo antes de tentar. E quando os dois se juntam, nasce aquele momento internacional: a família brasileira quer preservar a linhagem, a família polonesa quer que o nome funcione no sistema local, e o casal só queria casar em paz e comer bolo.

Identidade, não só papel

O que mais me chama atenção é que Brasil e Polônia parecem fazer a mesma pergunta com sotaques diferentes. No Brasil, a pergunta soa como: você quer acrescentar uma parte da outra pessoa à sua história? Na Polônia, ela soa um pouco mais administrativa: qual nome será usado por vocês e pelos filhos dentro do registro civil? As duas perguntas são legítimas, mas produzem emoções diferentes.

Também há uma diferença de expectativa social. No Brasil, muita gente ainda trata o nome de casada como sinal visível de família, embora cada vez mais casais mantenham seus nomes. Na Polônia, eu sinto uma naturalidade maior em discutir opções de forma direta, quase como parte do pacote de documentos. Talvez seja só minha experiência, mas a burocracia polonesa tem esse talento: ela não pergunta com drama, pergunta com formulário.

No fim, o sobrenome depois do casamento revela uma coisa bonita e meio desconfortável: amar alguém de outro país não junta apenas duas pessoas. Junta alfabetos, bancos de dados, avós, costumes, documentos vencidos e a pergunta filosófica mais prática do mundo: como vamos nos chamar agora?

Eu ainda acho engraçado que uma decisão tão romântica possa terminar em conversa sobre hífen. Mas talvez seja exatamente aí que mora a vida real de um casamento internacional. E você, manteria seu nome, acrescentaria o do outro ou criaria uma versão diplomática para agradar Brasil e Polônia?

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