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Português28 de julho de 2026Por Paulo Smolarek

O ar-condicionado que virou assunto de família

Entre o controle remoto brasileiro e a janela aberta polonesa, o calor mostra como Brasil e Polônia entendem conforto, conta de luz e adaptação.

O controle remoto que mudou de país

No Brasil, o ar-condicionado é uma daquelas coisas que dividem famílias com a precisão de um juiz de futebol. Tem a pessoa que coloca em 17 graus e dorme enrolada no edredom. Tem a pessoa que olha para a conta de luz e vira economista. E tem a terceira pessoa, geralmente a visita, que só pensa: "por favor, não desliguem agora".

Na Polônia, durante muito tempo, eu senti que o ar-condicionado morava em outro departamento da vida. Ele aparecia no shopping, em alguns escritórios, no hotel, talvez em um trem mais novo. Mas em apartamento comum, especialmente em prédio mais antigo, o calor era tratado com uma coreografia local: abrir janela cedo, fechar persiana quando o sol bate, reclamar com moderação e torcer para a noite refrescar. Para um brasileiro, isso soa quase poético até chegar a primeira noite abafada.

O calor que deixou de ser detalhe

O curioso é que essa diferença cultural está ficando menos estável. A Europa não virou Manaus, claro, mas o verão europeu está aprendendo palavras que antes pareciam tropicais demais. Em 2024, segundo o Eurostat, o consumo de energia dos domicílios da União Europeia para resfriamento chegou a 80,4 mil terajoules, praticamente o dobro do nível de 2018. A Agência Internacional de Energia também observa que a posse de ar-condicionado na Europa ainda é relativamente baixa, em torno de 20%, mas já deixou de ser assunto raro.

A Polônia sentiu isso de forma bem concreta em junho de 2026, quando Słubice registrou 40,5 graus Celsius, valor noticiado como novo recorde nacional. Para quem cresceu no Brasil, 40 graus não parece impossível. Para quem cresceu em um país onde muitos prédios foram pensados mais para guardar calor do que para expulsá-lo, é outra conversa. O problema não é apenas o número no aplicativo de clima. É o quarto que não esfria, o ventilador que só empurra ar quente e a discussão conjugal sobre dormir com a janela aberta ou fechada.

O Brasil conhece o aparelho, mas não igualmente

No Brasil, o ar-condicionado parece culturalmente mais familiar, mas isso não significa que ele seja universal. A EPE, em uma nota técnica sobre uso residencial, estimou que o consumo elétrico dos condicionadores de ar nas casas brasileiras mais que triplicou em doze anos, chegando a 18,7 TWh em 2017. E estudos recentes sobre eficiência lembram que a posse ainda é desigual: há muita diferença entre Norte, Sul, litoral, interior, renda alta e renda baixa.

Mesmo assim, o objeto já faz parte do nosso vocabulário emocional. A gente sabe discutir BTU sem saber exatamente o que é BTU. Sabe que quarto de hotel bom "gela bem". Sabe que shopping no verão pode virar passeio climático. E sabe que existe uma negociação silenciosa entre conforto e boleto. No Brasil, o ar-condicionado é desejo, alívio, status pequeno e medo da conta de luz ao mesmo tempo.

Na Polônia, o desconforto ainda negocia com a ideia de excesso

Na Polônia, percebo outra camada: o ar-condicionado às vezes ainda carrega a suspeita de exagero. Há quem ache que dá dor de garganta, que é artificial demais, que o verão dura pouco e não justifica a instalação. Também existe uma razão prática: muitos apartamentos não foram feitos para receber condensadora na fachada, e comunidades de prédio podem ter regras sobre aparência, ruído e obra.

A diferença que me diverte é que o brasileiro costuma discutir a temperatura do controle remoto como drama doméstico. O polonês muitas vezes discute se o aparelho deveria existir naquele cômodo. É uma etapa anterior da briga. E talvez por isso o tema seja tão revelador: ele mostra como cada país entende conforto. No Brasil, conforto muitas vezes é escapar do calor. Na Polônia, durante anos, conforto era proteger-se do frio. Agora os dois mapas estão se encontrando no mesmo controle remoto.

Um futuro menos folclórico

Eu não acho que a Polônia vá virar um país de ar-condicionado ligado o dia inteiro, nem que o Brasil tenha resolvido o problema de acesso ao conforto térmico. O que me chama atenção é outra coisa: o calor está obrigando culturas diferentes a rever pequenas certezas domésticas. O ventilador que bastava já não basta sempre. A janela aberta já não resolve todas as noites. E a conta de energia entra na conversa junto com saúde, sono, produtividade e humor.

Talvez a pergunta mais interessante não seja "qual país aguenta mais calor?". Brasileiro adora ganhar essa competição imaginária, mas ninguém dorme melhor porque venceu um debate. A pergunta melhor é: quando o clima muda, quais hábitos a gente insiste em chamar de identidade, e quais a gente finalmente aceita mudar?

E você, em casa, é do time que liga o ar sem culpa, do time que vigia o consumo, ou do time que ainda acredita heroicamente na janela aberta?

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