O inseto que muda de país
No Brasil, eu aprendi a respeitar mosquito antes de aprender a respeitar previsão do tempo. Basta uma água parada esquecida no pratinho da planta, um balde no quintal ou uma tampa de garrafa no terreno vazio para alguém da família comentar: “olha a dengue”. É uma frase quase doméstica, misturada com café, novela e reclamação do calor.
Na Polônia, no meu primeiro verão mais relaxado, eu achei curioso que a conversa mudava. Ninguém olhava tanto para o mosquito. O aviso vinha antes de entrar no mato, no parque, na grama alta, na działka: cuidado com kleszcze, os carrapatos. Volte para casa e olhe a perna. Olhe atrás do joelho. Olhe o cachorro. Para um brasileiro, é estranho descobrir que o perigo do verão pode não fazer barulho no ouvido. Ele pode simplesmente esperar numa folha.
Dengue ensina vigilância urbana
A dengue no Brasil não é só uma doença tropical abstrata. Ela organiza hábitos. O Ministério da Saúde lembra que a transmissão costuma crescer entre outubro e maio, quando calor e chuva ajudam o Aedes aegypti. Em 2024, alguns números ficaram enormes: São Paulo registrou mais de 2,18 milhões de casos prováveis, e o Paraná passou de 655 mil. No começo de 2025, o próprio ministério falava em 281.049 casos prováveis nas seis primeiras semanas, já com queda em relação ao ano anterior, mas ainda num volume que ninguém chama de pequeno.
É por isso que brasileiro escuta mosquito de outro jeito. A gente não pensa apenas “que incômodo”. Pensa em febre, dor no corpo, plaquetas, repelente, fumacê, vizinho que não limpa a caixa d’água. Até a vacina entrou na conversa pública: o SUS começou a usar a Qdenga priorizando crianças e adolescentes de 10 a 14 anos em municípios selecionados, justamente porque a quantidade de doses era limitada e a doença pesava muito.
O carrapato polonês é silencioso demais
Na Polônia, o roteiro emocional é outro. O verão é curto, precioso, quase uma pequena vitória nacional. Todo mundo quer parque, lago, floresta, churrasco, jardim, caminhada. Só que junto com essa liberdade vem o carrapato. O PZH já alertava que eles aparecem não só em florestas, mas também em parques, jardins, praças e lugares com grama baixa, folhas e arbustos. Ou seja: o cenário não precisa parecer selvagem para merecer atenção.
Os números explicam por que o aviso é sério. Em 2023, a Polônia registrou 25.285 casos de doença de Lyme e 1.155 hospitalizações, segundo dados do NIZP PZH. O mesmo instituto informou que os casos de encefalite transmitida por carrapatos chegaram a 659 em 2023, contra 265 em 2019. Não é a escala da dengue brasileira, claro. Mas é o tipo de risco que muda o ritual depois do passeio: banho, inspeção no corpo, pinça, aplicativo do médico, e às vezes uma pergunta ansiosa no Google que nunca melhora a noite de ninguém.
Dois medos, duas geografias
O que me chama atenção é que mosquito e carrapato ensinam geografias diferentes. A dengue brasileira faz a pessoa olhar para a cidade: água parada, lixo, calha, caixa d’água, obras, quintal, vizinhança. O carrapato polonês faz a pessoa olhar para o próprio corpo depois de passar pela natureza. Um perigo está ligado ao acúmulo urbano de água; o outro, ao encontro feliz com grama e bosque.
Também muda a personalidade do cuidado. No Brasil, o cuidado é coletivo de um jeito quase inevitável. Se o vizinho não faz a parte dele, o mosquito não respeita muro. Na Polônia, o cuidado parece mais individual e silencioso: calça comprida, repelente, checagem em casa, vacina contra encefalite para quem tem indicação, atenção ao cachorro. Um país ensina: não deixe água parada. O outro ensina: não volte do parque sem olhar a pele.
Eu ainda acho engraçado que a Polônia me deu uma liberdade que o Brasil raramente me dava: sentar na grama sem imaginar imediatamente um exército de mosquitos. Mas ela cobrou outro pedágio, mais discreto. Hoje, quando chega o verão, eu não pergunto só se vai chover. Pergunto também que tipo de bicho aquele país me ensinou a respeitar. E você, aprendeu a ter medo de qual criatura pequena depois de mudar de lugar?