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Português5 de junho de 2026Por Paulo Smolarek

Merenda escolar vs obiad: o almoço que educa Brasil e Polônia

No Brasil, a merenda é uma política nacional gigantesca; na Polônia, o obiad escolar começa pela garantia do prato quente. Os dois modelos mostram o que cada país considera cuidado básico com uma criança.

O prato que parece pequeno, mas carrega um país inteiro

No Brasil, a palavra merenda tem uma força quase afetiva. Ela pode ser uma fruta, um arroz com feijão, um mingau, uma sopa, um pão com alguma coisa dentro, e também pode ser a lembrança de uma fila barulhenta no intervalo. Na Polônia, quando eu ouço uma criança falar de obiad w szkole, a imagem muda: geralmente penso em um prato quente, servido em um horário mais organizado, muitas vezes com sopa ou um segundo prato, e com pais pagando mensalmente ou acertando a lista de dias.

A diferença parece culinária, mas é mais profunda. No Brasil, a alimentação escolar nasceu como política pública de escala continental. O PNAE, administrado pelo FNDE, atende aproximadamente 40 milhões de estudantes da educação básica pública e conveniada. Não é só um lanche para quem esqueceu a mochila em casa; é parte do funcionamento da escola. Em 2026, uma regra importante ficou ainda mais forte: pelo menos 45% dos recursos federais do PNAE devem ir para compras da agricultura familiar, depois da Lei 15.226/2025. Ou seja, a merenda brasileira tenta ligar a criança, a escola e o produtor local no mesmo prato.

A Polônia pensa primeiro no prato quente

Na Polônia, a lógica que me chama atenção é outra. Desde 1º de setembro de 2022, as escolas primárias têm a obrigação de garantir aos alunos um prato quente por dia e um lugar para comê-lo durante a permanência na escola. A lei não transforma automaticamente todo almoço em refeição gratuita; em muitos casos, o uso da cantina é pago, e a assistência social cobre crianças em famílias que precisam de apoio. O programa governamental "Posiłek w szkole i w domu", renovado para 2024-2028, ajuda municípios e escolas a financiar refeições, cantinas e espaços de alimentação.

Para um brasileiro, isso soa ao mesmo tempo familiar e estranho. Familiar porque comida na escola também é assunto de Estado. Estranho porque no Brasil a conversa costuma começar pela universalidade: todo aluno da rede pública dentro do programa, todo dia letivo, com regras nacionais de repasse. Na Polônia, a conversa começa mais pelo acesso físico ao almoço quente e pela organização local: a escola, a prefeitura, a cantina, a taxa, a lista, o horário.

Feijão, sopa e a educação silenciosa do gosto

A parte mais bonita é que os dois sistemas educam o gosto sem fazer discurso. No Brasil, a merenda pode apresentar uma criança urbana a alimentos produzidos por pequenos agricultores da região. Quando a escola compra mandioca, banana, leite, ovos ou hortaliças da agricultura familiar, ela não está apenas enchendo uma panela; está dizendo que comida local tem valor. Claro que a execução varia muito. Todo brasileiro conhece histórias de merenda ótima, merenda triste, licitação confusa e cardápio que no papel parecia melhor do que na bandeja.

Na Polônia, eu vejo outro tipo de educação: a normalidade da comida quente no meio do dia. Para muita gente, almoço de verdade precisa ter sopa, batata, kasza, carne, surówka, algo que pareça feito para aquecer o corpo. Um sanduíche pode resolver a fome, mas não recebe o mesmo respeito emocional. É curioso para mim, porque o Brasil também ama comida quente, mas a palavra "merenda" ainda aceita uma elasticidade enorme. Ela pode ser refeição completa ou lanche reforçado, dependendo da escola e do município.

O que cada país revela quando serve uma criança

Comparar merenda e obiad não é decidir quem tem o prato mais bonito. O Brasil revela sua preocupação com desigualdade, território e produção rural. A Polônia revela sua preocupação com rotina, cuidado diário e estrutura local. Um país tenta alimentar quarenta milhões de estudantes com uma política nacional gigantesca; o outro coloca na lei a ideia simples, quase doméstica, de que uma criança na escola primária deve ter acesso a um prato quente.

Quando penso nisso como brasileiro morando na Polônia, percebo que a comida escolar é uma aula sem quadro. Ela ensina o que uma sociedade considera básico. No Brasil, básico é não deixar a criança estudar com fome e, cada vez mais, aproximar a escola da agricultura familiar. Na Polônia, básico é garantir que o dia escolar tenha uma pausa quente, com mesa, horário e alguma sensação de casa.

E você: qual comida de escola ficou na sua memória — a que dava saudade ou a que você prometeu nunca mais comer?

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