Há cidades brasileiras que guardam a imigração europeia como uma placa bonita na praça. Curitiba, quando o assunto é Polônia, faz algo mais interessante: deixa a história escapar pelo caminho de pedra do Bosque do Papa, pelo sobrenome no consultório, pela igreja de bairro, pela feira de fim de semana e, claro, pelo vapor de um pierogi chegando à mesa.
A reportagem do G1 publicada em 2018 contou a trajetória de Sebastião Edmundo Wos-Saporski, lembrado como o “pai da imigração polonesa no Brasil”. Oito anos depois, vale voltar ao tema com olhos de 2026: não só para repetir a história, mas para perguntar onde essa Polônia curitibana ainda aparece na vida real. A resposta curta é: em mais lugares do que parece.
O homem que ajudou a abrir caminho
Saporski chegou a Curitiba em 1870 e, no ano seguinte, ajudou a instalar famílias polonesas nos bairros Pilarzinho e Mercês. Aquele grupo vinha de Santa Catarina e procurava melhores condições para trabalhar e viver. Segundo o relato histórico recuperado pelo G1, foram 32 famílias nesse primeiro núcleo em Curitiba; poucos anos depois, outras 64 famílias chegaram e receberam terras no Ahú, formando a Colônia Abranches.
É fácil transformar esse tipo de história em frase de museu: “colonização”, “imigração”, “terras devolutas”. Mas por trás disso havia gente com frio, idioma novo, documentos confusos, ferramentas na mão e uma saudade que provavelmente não cabia no baú. Saporski importava porque ajudava a transformar deslocamento em comunidade. Ele conhecia caminhos legais, transitava entre autoridades e buscava condições para que os conterrâneos não chegassem ao Paraná como indivíduos perdidos, mas como famílias com algum ponto de partida.
Curitiba cresceu por cima desses caminhos. Pilarzinho, Mercês, Ahú e Abranches hoje são nomes de bairros plenamente urbanos, com trânsito, prédios, mercados e consultórios. Ainda assim, há uma camada polonesa ali, como um subtexto. O nome da rua não conta tudo; às vezes quem conta é a receita guardada pela avó.
O Bosque do Papa não é só cenário
O lugar mais visível dessa memória é o Bosque João Paulo II, conhecido como Bosque do Papa. Ele foi inaugurado em 13 de dezembro de 1980, depois da visita do papa João Paulo II a Curitiba naquele mesmo ano. O espaço, com cerca de 46 mil metros quadrados segundo o turismo municipal, abriga o Memorial da Imigração Polonesa, com casas de madeira que ajudam a contar a vida dos primeiros imigrantes.
Para o visitante apressado, o bosque pode parecer apenas um ponto turístico simpático: árvores, casinhas, fotos. Mas para descendentes de poloneses no Paraná ele funciona quase como uma tradução pública de algo que muitas famílias viveram em privado. Ali a cultura sai da cozinha e vira cidade.
E essa é a parte bonita de Curitiba: a memória polonesa não compete com o Brasil. Ela se mistura. Um curitibano pode almoçar pierogi, tomar café coado, reclamar do frio de oito graus como se estivesse em Zakopane e depois pegar ônibus como qualquer brasileiro com pressa. É uma Polônia tropical, mas com casaco.
Em 2026, a Polônia também está no prato
A atualização mais saborosa dessa história está na gastronomia. Em Curitiba e nos arredores, a culinária polonesa deixou de ser só comida de família e virou experiência aberta para quem não herdou sobrenome terminado em “ski”.
Na entrada do Bosque do Papa, a Kawiarnia Krakowiak é uma referência afetiva. O próprio nome já entrega a proposta: kawiarnia, em polonês, é café. A casa informa que foi inaugurada em novembro de 1989 e que pertence a uma família de poloneses de primeira geração, especializada em quitutes típicos. É o tipo de lugar onde a visita ao memorial pode terminar com torta, chá, café e aquela sensação de que cultura material também tem açúcar.
Para quem procura pierogi de forma mais direta, aparecem nomes como Tadeu O Rei do Pierogi, Pierogi da Cidade e Casa dos Polaco, citados em guias, páginas de restaurantes e buscadores locais. O detalhe curioso é que o pierogi em Curitiba já vive duas vidas: a tradicional, ligada à batata, requeijão, repolho ou carne; e a brasileira, com adaptações, rodízios, delivery e recheios que talvez fariam uma babcia levantar a sobrancelha antes de pedir mais um.
E vale olhar além da capital. Em São José dos Pinhais, na Colônia Murici, a herança polonesa aparece em turismo rural, festas, paisagem e restaurantes como a Pierogarnia, especializada em gastronomia polonesa. A região fica a uma distância curta de Curitiba, mas muda o ritmo: menos pressa de capital, mais domingo comprido. Para quem quer entender a presença polonesa no Paraná, esse entorno é quase obrigatório.
Um aviso honesto de 2026: horários, cardápios e funcionamento mudam. Antes de sair atravessando a cidade atrás de pierogi, confira as páginas oficiais ou perfis recentes. A tradição pode ser antiga; o Google Maps, infelizmente, ainda é necessário.
A maior colônia polonesa do país virou cotidiano
A frase “maior colônia polonesa do Brasil” às vezes dá a impressão de uma comunidade separada, como se existisse uma pequena Polônia murada dentro de Curitiba. Não é isso. O que existe é mais interessante: uma influência espalhada. Ela aparece na arquitetura de madeira, nos grupos folclóricos, nas festas como a Święconka de Páscoa, nos sobrenomes, nas paróquias, nas comidas e em uma certa ideia curitibana de que frio combina com sopa, massa e família reunida.
Também mudou a forma como olhamos para imigração. Em 2018, a reportagem do G1 já lembrava os 150 anos da chegada dos primeiros poloneses ao Brasil, celebrados em 2019. Em 2026, essa história conversa com um Brasil que discute identidade, dupla cidadania, memória familiar e novas migrações. Muitos brasileiros descendentes de europeus hoje pesquisam certidões, tentam reconstruir árvores genealógicas e se perguntam de onde vieram certos costumes que pareciam apenas “coisa de casa”.
Curitiba oferece uma resposta concreta: a história não está só em documentos. Está no bairro onde a família se instalou, na igreja onde casou, no bosque que virou memorial e no prato servido num domingo.
Saporski ajudou a abrir a porta. As famílias polonesas construíram caminho. A cidade, mais de 150 anos depois, continua fazendo algo muito brasileiro com essa herança: mistura, adapta, vende no delivery, celebra em festa típica e ainda encontra espaço para emoção.
Se você tem uma história polonesa em Curitiba, ela começa em qual lugar: numa certidão antiga, numa casa de madeira, numa visita ao Bosque do Papa ou num prato de pierogi?
Referências
- G1 Paraná/RPC, “A Polônia em Curitiba: conheça o ‘pai’ da imigração e como ele deu início à maior colônia polonesa do país”, 2018.
- Turismo Curitiba, página do Bosque do Papa / Memorial da Imigração Polonesa.
- Kawiarnia Krakowiak, página institucional e perfis públicos.
- Guias e páginas públicas de restaurantes consultados em 2026: Tripadvisor, Restaurant Guru, Bem Paraná, Primeira Mesa e sites dos estabelecimentos citados.
- Materiais públicos sobre Colônia Murici e turismo rural em São José dos Pinhais.