Chegar a Wadowice e encontrar uma confeitaria com vitrines cheias de kremówka parece uma cena simples. Há camadas de massa folhada, creme claro, açúcar por cima e a delicada dificuldade de comer sem deixar a roupa marcada. Mas, nessa cidade do sul da Polônia, o doce também virou endereço de memória. Wadowice é a cidade natal de Karol Wojtyła, que se tornaria o papa João Paulo II.
Para quem vem do Brasil, a ligação pode soar inesperada: por que uma cidade inteira fala tanto de uma sobremesa? A resposta está na maneira polonesa de guardar o passado. Em vez de uma história distante, preservada apenas em museus, existe uma lembrança de escola, de colegas e de uma confeitaria. Durante uma visita a Wadowice em 1999, João Paulo II recordou que, depois dos exames finais, ele e os amigos tinham comido kremówki. A memória foi suficiente para transformar o doce num símbolo local.
A fama criou um pequeno problema de idioma. Em português, alguém pode chamar tudo de “mil-folhas”. Isso ajuda, mas não resolve inteiramente. A kremówka polonesa costuma ter duas placas de massa folhada e um recheio espesso de creme, às vezes com creme de baunilha, às vezes com chantili. A versão associada a Wadowice costuma receber o apelido de papieska kremówka, literalmente “kremówka papal”. Não é uma receita exclusiva feita pelo Vaticano, nem um produto religioso: é um nome carinhoso para uma sobremesa que a cidade adotou.
Também não existe uma única kremówka perfeita. Algumas vêm altas e muito cremosas; outras têm camadas mais firmes; algumas levam açúcar de confeiteiro, outras cobertura. A melhor estratégia é pouco solene: escolha uma confeitaria, peça uma fatia e aceite que o primeiro garfo talvez derrube uma camada. A embalagem e o garfinho de plástico fazem parte da experiência.
O que eu gosto nessa tradição é que ela diminui uma figura enorme para uma escala humana. João Paulo II continua presente nas placas, na basílica e no museu da casa onde nasceu. Mas a kremówka lembra que, antes de ser papa, Karol era um garoto que saía da escola com os amigos e queria comer algo doce. Para brasileiros, acostumados a transformar bolo, brigadeiro ou pão de queijo em assunto de família, isso é imediatamente compreensível.
Wadowice não pede que o visitante tenha uma relação religiosa com a história local. Pede apenas atenção. Entre uma fotografia, uma praça e uma fatia de massa folhada, a cidade mostra como comida pode conservar uma biografia. Às vezes, conhecer a Polônia começa com uma palavra difícil de pronunciar. Às vezes, começa com açúcar no casaco.