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Português15 de setembro de 2026Por Paulo Smolarek

A sirene da vila: por que a Polônia tem tantos bombeiros voluntários

Na Polônia o bombeiro costuma ser o vizinho: a brigada voluntária também é centro social da vila. No Brasil, esse modelo existe com força em Joinville desde 1892, mas como exceção, não como regra nacional.

A sirene que eu aprendi a ler errado

Moro na Polônia há alguns anos e ainda me assusto com a sirene. Não é sirene de fábrica, nem alarme de carro, nem sirene de guerra. É a sirene da OSP — a Ochotnicza Straż Pożarna, a brigada de bombeiros voluntários da minha cidade. Ela toca uma vez por semana, no meio da tarde, só para testar. Na primeira vez, fui até a janela procurando fumaça. Não havia fumaça nenhuma. Havia vizinhos levantando a cabeça por dois segundos e voltando ao que estavam fazendo, como quem reconhece um som doméstico.

Demorei para entender que o erro era meu. Eu estava lendo a palavra bombeiro com os olhos de quem cresceu no Brasil.

Dois países, duas ideias de bombeiro

No Brasil, bombeiro é, quase sempre, Corpo de Bombeiros Militar: o 193, o quartel grande, o caminhão vermelho, a farda, a hierarquia, o Estado chegando com sirene. Existe bombeiro voluntário no Brasil, e existe desde muito antes do que eu supunha — mas ele é uma exceção regional, não o tecido comum do país.

A exceção mais famosa é Joinville, em Santa Catarina. O Corpo de Bombeiros Voluntários de Joinville foi fundado em 13 de julho de 1892 e é a instituição mais antiga do gênero no Brasil. Começou com 39 soldados do fogo, numa cidade que tinha então 41 anos e cerca de 15 mil habitantes. Hoje, segundo a própria corporação, reúne cerca de 1.700 pessoas, entre bombeiros mirins, voluntários, efetivos, brigadistas e pessoal de apoio. É uma história bonita, com raiz de imigração — e, justamente por isso, parece um caso especial, não uma regra nacional.

Na Polônia, a regra é o voluntariado. Dados do perfil de Proteção Civil da União Europeia indicam cerca de 500 unidades profissionais de bombeiros no país, todas integradas ao sistema nacional, e cerca de 16 mil unidades voluntárias (OSP), das quais mais de 4 mil fazem parte do KSRG, o sistema oficial de resposta a emergências. Em números: a Polônia tem muito mais brigadas voluntárias do que profissionais, e boa parte delas está formalmente dentro da estrutura pública de socorro.

O que a OSP é além de bombeiro

É aqui que a comparação brasileira começa a falhar. A OSP, na prática, é também um centro social da comunidade. A remiza — o prédio da brigada — costuma ser salão de festas, palco de eventos de paróquia, sede de time de futebol amador, ponto de encontro. Muitas têm orquestra. Muitas treinam crianças e adolescentes, as MDP, para que a brigada continue viva na geração seguinte. Em cidades pequenas, é comum você saber o nome de quem atenderia a sua rua.

Também é trabalho reconhecido. A lei polonesa de 2021 sobre as brigadas voluntárias criou um benefício de resgate (świadczenie ratownicze) para quem cumpre décadas de serviço — um jeito de dizer, em dinheiro, que aquilo não é passatempo.

A confiança que já se conhece

No Brasil, minha relação com emergência sempre foi de ligação: acontece algo, você disca, chega alguém que você não conhece. Na Polônia, muitas vezes chega alguém que você já conhece — que também organiza a festa da paróquia, treina o time do filho, aparece de uniforme no feriado. A sirene não chama desconhecidos. Chama vizinhos.

Talvez seja essa a diferença que mais me marcou: lá, a confiança não é só uma instituição. É uma vizinhança treinada.

E na sua cidade? Você sabe o nome de quem correria primeiro?

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