Voltar aos artigos
Português6 de agosto de 2026Por Paulo Smolarek

A cerveja no parque que muda de país

Uma cerveja aberta no parque parece normal no Brasil, mas na Polônia vira uma pequena aula sobre lei, silêncio e espaço público.

A latinha que ficou pesada

No Brasil, uma das imagens mais normais de fim de tarde é alguém encostado numa mureta, numa praia, numa praça ou na porta de um bar com uma cerveja na mão. Às vezes é falta de cadeira, às vezes é falta de dinheiro para sentar num lugar mais arrumado, às vezes é simplesmente porque a rua brasileira sempre foi um pouco sala de estar. A bebida não torna automaticamente a cena elegante, claro. Pode virar barulho, sujeira, briga e incômodo. Mas a presença da latinha em si raramente me pareceu uma pergunta jurídica.

Na Polônia, essa mesma latinha ganha peso. Não é só peso de alumínio; é peso de regra. A primeira vez que pensei em abrir uma cerveja num parque, fiz aquele cálculo de imigrante que ninguém ensina: estou fazendo algo comum ou algo que vai atrair um olhar muito específico de desaprovação? Depois descobri que a dúvida não era paranoia tropical. A lei polonesa proíbe o consumo de álcool em lugar público, com exceção dos espaços destinados a isso, como bares, restaurantes, jardins de cerveja e eventos autorizados.

O que a regra revela

A parte curiosa é que a regra polonesa não fala apenas de álcool. Ela fala de como o espaço público deve funcionar. No Brasil, a rua muitas vezes é uma extensão da casa porque a casa pode ser pequena, quente, cheia, longe da natureza ou simplesmente menos democrática que a calçada. Na Polônia, especialmente para quem chega do Brasil, o parque parece organizado demais para virar festa espontânea. Ele é público, mas não é exatamente “de ninguém”. Existe uma ideia muito forte de que o espaço compartilhado precisa continuar previsível para a avó caminhando, para a criança correndo e para o vizinho que só quer ler sem trilha sonora.

Nas minhas notas de pesquisa, três detalhes deixam a diferença bem concreta. Primeiro: a lei polonesa de 1982 sobre educação em sobriedade, no artigo 14, veda beber álcool em lugar público fora de pontos autorizados. Segundo: a exceção pode ser criada por município em áreas específicas, mas não é a regra geral. Terceiro: a multa aplicada no cotidiano costuma aparecer como 100 zł, embora outros comportamentos ligados à desordem possam tornar a situação bem mais cara ou séria. De repente, uma cerveja barata de mercado deixa de ser barata se for aberta no banco errado.

O Brasil não é exatamente uma bagunça sem regra

O erro seria transformar isso em “Polônia tem lei, Brasil não tem”. O Brasil também tem limites. Vender bebida para menores de 18 anos é proibido, dirigir depois de beber é assunto sério desde a Lei Seca, e há cidades brasileiras com leis municipais proibindo bebida em certos espaços públicos. Além disso, a Lei das Contravenções Penais trata a embriaguez pública como problema quando a pessoa causa escândalo ou coloca em perigo a própria segurança ou a dos outros.

Mas a sensação cultural é diferente. Em muitas cidades brasileiras, beber em público sem incomodar ninguém é socialmente aceito. O limite costuma aparecer quando o comportamento passa do copo para o volume, da risada para a confusão, da praia para a sujeira deixada na areia. Na Polônia, o limite chega antes: não espere a festa sair do controle, controle a possibilidade da festa ali.

O choque pequeno que vira aula

Esse é um daqueles choques pequenos que mudam o jeito de morar. Não tem drama, não tem grande filosofia no supermercado. Só tem uma decisão simples: compro a cerveja para levar para casa, sento num lugar autorizado ou escolho um café. Parece pouco, mas ensina muito. No Brasil, eu aprendi que a rua pode acolher improviso. Na Polônia, estou aprendendo que o espaço público também pode ser cuidado por regras que chegam antes do conflito.

Ainda sinto saudade da naturalidade brasileira de sentar numa calçada e deixar a conversa crescer. Ao mesmo tempo, entendo o prazer polonês de entrar num parque e encontrar silêncio, grama limpa e famílias que não precisam negociar com o humor de um grupo bêbado. Talvez a pergunta não seja qual país está certo. Talvez seja: que tipo de liberdade a gente quer proteger quando divide o mesmo banco, a mesma praça e o mesmo fim de tarde?

Gostou deste artigo? Explore mais conteúdos!

Ver todos os artigos