Voltar aos artigos
Português19 de abril de 2026Por Paulo Smolarek

Por que caminhar à noite na Polônia ainda me espanta como brasileiro

Uma das diferenças mais discretas entre Brasil e Polônia aparece depois que escurece: a quantidade de energia mental que a gente gasta apenas para voltar para casa. Morando aqui, descobri que segurança também muda o jeito como o corpo existe na cidade.

Dez da noite, rua vazia, e eu estou… bem?

Faz quase três anos que moro na Polônia, e tem uma coisa que até hoje me pega de surpresa: caminhar sozinho à noite sem pensar duas vezes.

Não é que eu saia procurando aventura. É o contrário. Saio do trabalho, passo no mercado, volto andando pelo parque — e só quando chego em casa percebo que em nenhum momento apertei o passo, olhei por cima do ombro ou mudei de calçada porque alguém vinha na direção contrária.

Pra quem cresceu no Brasil, isso não é automático. É quase uma reprogramação.

O corpo lembra antes da cabeça

Nos primeiros meses em Poznań, eu continuava fazendo tudo que aprendi crescendo em cidade brasileira: celular no bolso da frente, mochila sempre na frente do corpo no transporte público, caminho mais iluminado mesmo que fosse mais longo. Não era medo consciente — era o piloto automático que qualquer brasileiro conhece.

Um dia, voltando de um bar por volta da meia-noite, percebi que estava com o celular na mão, olhando o mapa tranquilamente, sem nenhuma tensão no corpo. Parei no meio da calçada e pensei: "quando foi que isso mudou?"

Não sei responder com precisão. Mas mudou.

Os números que explicam (em parte)

Segundo o Banco Mundial, em 2023 a taxa de homicídios no Brasil era de 19.2753 por 100 mil habitantes. Na Polônia, era de 0.8023 por 100 mil habitantes. A diferença é brutal — quase 24 vezes maior no Brasil.

Mas eu trago esses números com cuidado, porque número nenhum conta a história toda. O Brasil é continental, e a violência não se distribui de forma igual: tem bairro em Curitiba ou Florianópolis onde a sensação de segurança é alta, e tem esquina em Varsóvia onde você pode ter problema. A Polônia não é um paraíso sem risco, e o Brasil não é um campo de batalha uniforme. Reduzir qualquer país a uma estatística é injusto com quem vive nele.

Ainda assim, a diferença é grande demais pra ignorar. Ela aparece no corpo antes de aparecer na cabeça.

O que muda quando o medo diminui

A surpresa maior não é a segurança em si — é o que ela libera. Quando você não gasta energia mental calculando risco o tempo todo, sobra espaço pra outras coisas.

Eu comecei a reparar nas fachadas dos prédios à noite, na luz das janelas, no barulho dos bondes passando vazios. Comecei a gostar de andar sem fone, só ouvindo a cidade. Descobri padarias que só achei porque resolvi voltar por um caminho diferente às onze da noite.

Isso pode parecer bobagem, mas pra mim foi uma pequena revolução interna. O ato de flanar — andar sem destino, sem pressa, sem vigilância — virou possível de um jeito que eu não conhecia.

Saudade complicada

Nada disso me faz amar menos o Brasil. Pelo contrário: me faz ter uma raiva mais lúcida do que poderia ser diferente. Porque brasileiro merece poder andar à noite também. Merece esse luxo que aqui nem é visto como luxo — é só terça-feira.

Quando volto pro Brasil nas férias, o piloto automático reativa em menos de 24 horas. O corpo lembra rápido. E isso me dá uma tristeza específica, porque mostra que a tensão nunca foi exagero — era adaptação real a um contexto real.

A pergunta que fica

Eu me acostumei a me sentir seguro. E às vezes me pergunto se isso é bom ou se estou ficando ingênuo. Será que existe um ponto ideal entre a hipervigilância brasileira e a despreocupação polonesa — ou a gente simplesmente se adapta ao lugar onde está e segue caminhando?

Você que também saiu do Brasil: em quanto tempo o seu corpo relaxou?

Gostou deste artigo? Explore mais conteúdos!

Ver todos os artigos